O mundo é um moinho

Por muito tempo ela quis compreender os encontros de almas que o universo oferece.

Difícil fugir: tarde ou cedo, simplesmente acontecem. Régnier dizia:

“o mundo é um carnaval onde tudo se confunde; quem pensa ganhar é amiúde quem perde”.

Resta seguir a correnteza e parar de lutar contra moinhos de vento…

E ela que nunca acreditou em numerologia, começou a cogitar que o arco íris tinha apenas quatro cores: afinal, o ano era do tetra, seu final era múltiplo de dois e o momento escancarava poesia aos quatro ventos. Até ali, havia vivido quatro amores, estavam em quatro amigas e pela primeira (e última!) vez na vida achara um trevo-de-quatro-folhas. O moinho girava movimentado por quatro pás e foram seus dois pares de olhos que se encontraram e não se perderam mais.

Lá estava ele com seu mundo mágico, seus olhos sábios e sua mão estendida dizendo VEM! Nem ousou recusar… sabia que não dava pra dizer não aos belos convites da vida. Com os cabelos temporariamente roxos – já que o salão se vestia de fantasias – ela entrelaçou seus dedos aos dele e, naquela noite, viu o sol nascer escutando histórias… Sentiu que seria inesquecível e duradouro. E foi.

Escolhera um sapato baixo: a partir de agora, enxergaria o mundo de frente. Aquele jovem apenas era (e apenas ser é absolutamente tudo!). Não precisaria mais de alturas para avistar ao longe. “Tentarei apenas ser!’”, pensou ela – mas logo viu que não seria assim tão fácil… ainda mais que sua alma era tingida com as cores do ocidente. Ele preocupou-se em aquecer a cabeça dela com um gorro, mas não lhe deu seus óculos… Com que lentes enxergaria a estrada? Quatro dias se passaram e os fios de cabelos voltaram a cor real. Foi embora.

A distância dificulta a visão porque os musgos da vida, além de promoverem escorregões, também distorcem a paisagem. Os botões singelos, tantas vezes, padecem antes mesmo de colorirem e perfumarem o jardim. Tem uma parte da mente, onde tudo transpira inconsciência, que há tantas curvas e cantos escuros e inalcançáveis, que não se tem ideia de que uma escolha não se trata apenas do querer. Sonhavam ficar juntos e, tal qual Ariadne, ele lhe oferecia o fio apontando a saída para seus labirintos: espécie de salvo-conduto aguardando-a do lado de fora… mas ela não suportava a escuridão das incertezas.

Ele sentenciou: a não ser que fosse para bater à sua porta de mala na mão e ficar de vez, ela que não voltasse mais! Então, soltaram o fio. E se perderam mais uma vez.

A vida não apavora. Mas toda a expectativa que se faz ao redor dela, as alegorias, isso sim, soa insuportável. Esses hiatos incompreensíveis que não nos deixam avançar, parecem sussurrar que qualquer disputa será inútil… e a vida, que poderia ser tão mais simples, ‘apenas sendo’, vira um emaranhado de fios. Parece mais fácil não ir.

E, como se ela tivesse sido a única responsável pelo afastamento de ambos, seguiu vasculhando pelos cantos da vida, de tempos em tempos, tentando encontrá-lo. Foi sua velha mania de culpa e incompletude que fez pensar que sua pequenez apenas lucra com os encontros: sem dar nada em troca a ninguém – é ela que borrifa no pescoço o perfume inebriante do débito eterno. Porém, o tempo e o cessar dos ventos lhe permitiram tecer algumas sabedorias: talvez ela também não coubesse no mundo dele; talvez nenhum dos dois tivesse chave para abrir a porta da casa para o outro; talvez apenas respeitaram as águas e as almas – única forma de deixar nascer as três flores que tinham que nascer.Foram ambos que lutaram contra os moinhos de vento…

Depois de tantos anos, a alquimia das palavras ainda tinha força suficiente para elevar às nuvens seus afetos mais nobres. E era ali, na virtualidade das imagens e das falas, que ela enxergara novamente seu fio de Ariadne. Outra vez ele indicava um tesouro… aquele que ela há tempos buscava. Agarrou firme a chave do cofre: abriria a porta e faria a travessia. Só mesmo ele, seu Don Quixote encantado, para apontar algumas direções.

Agora, o vento era de paz. Sabia onde encontrá-lo: assim era mais fácil voltar pra casa. Como cantou Cartola, o mundo é mesmo um moinho.

– Flávia Bernardi