
Lygia Fagundes Telles, nossa diva da literatura e da simbologia, contou, numa entrevista, que quando “bem jovenzinha”, durante a 2a Guerra Mundial, estudava na Faculdade de direito do Largo de São Francisco e resolveu, junto com os colegas, protestar contra a ditadura de Getúlio Vargas. Sabendo disso, o chefe da Segurança Pública avisou que até poderiam se agrupar, mas não poderiam falar absolutamente nada… decidiram, então, que seria a ‘Passeata do silêncio’. Ela comprou 3 metros de filó preto e distribuiu ao grupo, que amarrou o pano à boca e caminhou o trecho todo assim, silencioso – mas deixando claro que o silêncio vinha de uma imposição: tinham o que dizer, mas haviam sido proibidos. Protestaram, da forma que era possível: sem dizer nada, mas dizendo tudo.
Ela também achou um jeito de denunciar as torturas da ditadura em “As Meninas” (1973), escrevendo uma sequência de denúncias e colocando-a no fim do livro, por sugestão do marido. Em outra entrevista, contou que os censores, não muito adeptos à leitura, acharam o seu livro “tão chato” que sequer chegaram na sequência final: nem chegaram a ‘parte proibida’e assim, ela foi publicada.
Anos depois, em janeiro de 1977, num voo para Brasília, Lygia levou consigo um manifesto[1], assinado por mais de mil intelectuais brasileiros, contra a censura da época. Saiu disposta a entregar o documento a Armando Falcão, ministro da Justiça da época. Mas, naquela manhã, um temporal causou turbulências assustadoras no avião, deixando todos a bordo apavorados. Naquele momento de tensão, ela sussurrou ao amigo, jornalista e historiador, Hélio Silva, que a acompanhava na viagem para a capital federal: “É uma conspiração de nuvens”… e ele responde: “Se não cairmos agora, seremos presos na chegada”. Não foram presos, e ainda conseguiram entregar o tal documento que falava tanto. Lygia conta essa história no seu livro de contos e crônicas[2], lançado três décadas depois, em 2007 – e intitulado com a sugestiva frase, usada por ela naquele janeiro, onde até o conjunto de partículas no céu parecia usar farda e tentar oprimir a passagem da liberdade. Ela sempre encontrou uma forma de dar voz aos seus protestos… e encontrar rotas para que nem as nuvens fossem empecilhos.
Fiquei imaginando o manifesto sendo entregue, atado por um filó preto, mas cheio de voz, tal qual a passeata da sua juventude. Lygia foi uma mulher inteligente, atenta, sensível, articulada… seria impossível escrever as belezas profundas que escreveu se não pudesse contar com esse seu arsenal psíquico. Escrevemos o que temos, o que somos.
Hoje, 2025… e longe da ditadura (que quase nos abocanhou novamente) podemos usar nossa voz de forma mais livre (apesar de escorregarmos para uma liberdade total – deliberada e oportunista – de expressão que geram fake news que apavoram meio mundo!). A democracia é a possibilidade de ter voz, mas liberdade de expressão não significa dizer tudo o que se quer: porque a vida também exige silêncios e continências.
O linguista e filósofo americano Noam Chomsky, falou sobre as fake news no mundo contemporâneo: “O quadro do mundo que é apresentado às pessoas não tem a mínima relação com a realidade, já que a verdade sobre cada assunto fica enterrada sob montanhas de mentiras”.
Aproveito esse espaço para falar do filme Ainda Estou Aqui, que rendeu prêmios ao Brasil e ainda divulgou um regime que causou tanta dor e dano (sim, sim, sim: a ditadura existiu e causou horror, apesar das irresponsáveis fake news jogadas livremente por aí, contrariando fatos e feridas). Eunice Paiva soube bem usar o pano preto da Lygia – ou, talvez, tenha sido o contrário! – e fazer importantes manifestações, até mesmo distribuindo sorriso, quando o fotógrafo exigia caras sérias.
Penso que ainda precisamos decifrar melhor os momentos de usar a fita e os de tirá-la. Temos voz sempre, mesmo quando somos calados. Tem momentos em que o ficar em silêncio – quando conscientes dos fatos – não significa sermos mudos, nem hipócritas, nem ignorantes: tem vezes que as nuvens dissipam por si só, noutras, inevitável recalcular a rota.
Como disse Camões : “Estou em paz com a minha guerra”. E complemento: temos que estar vivos e livres para poder lutar pelo que acreditamos – porém sempre encontrando uma forma de se manifestar.
E a neutralidade? Que ela fique restrita apenas aos nossos consultórios.
[1] O manifesto (assinado por intelectuais importantes como: Carlos Drummond de Andrade, Nélida Piñon, Antonio Carlos Jobim, Oscar Niemeyer, Heloneida Studart e Jorge Amado) criticava a censura de uma forma geral, mas denunciava, especificamente, os então recentes vetos a três obras de José Louzeiro, Ignácio de Loyola Brandão e Rubem Fonseca.
[2] Conspiração de Nuvens, 2007. Editora, Rocco.
TEXTO ORIGINALMENTE PUBLICADO NO BOLETIM INFORMATIVO 2025/1 DO CEPDEPA/SERRA
CRÉDITOS DA IMAGEM
Esta obra, intitulada ‘Livrai-nos do mal’, é da artista gaúcha Graça Craidy, que também ‘grita’ por meio de pincéis e tintas. Ela faz parte da sua última exposição: Meu Bem, Meu Mal – onde Graça ‘ergue a voz’ contra as injustiças e barbáries.
(Link para conferir todas as obras da exposição: https://issuu.com/gauchazh/docs/_meu_bem_meu_mal_)