Mania de ficar só

5a feira era dia de carteiro.
Ladeira abaixo, cambaleante,
bolsa a tiracolo.
Da esquina, já gritava:
‘Olha a carta aí, gente!’
E a esperança esboçava um sorriso.

Depois da 4a enluarada
chegou um envelope gélido.
Numa formalidade triste,
a anunciação da partida:
‘Vou porque na verdade nunca vim.
Não existo. Você me inventou.’

Assim, sem maiores explicações,
pra não dar oportunidade de réplica.
Incrédula, olhou de novo:
ver se achava algum resquício
do sujeito ali.
Mas era só papel.

Não reconhecia a letra, nem o idioma.
Não reconhecia nada.
‘Alguém guiou seu punho’, só podia.
Quis acreditar.
A decepção abre a ferida e punge o sal.
Ardia.

Na última linha,
um protocolar ‘abraço’.
(Pá de terra que faltava,
para enterrar o que nunca existiu)
Jazia.
A esperança agora não sorria.

O selo, era a desconsideração.
Cera de enganos,
lacrando o envelope.
Enviado feito mala-direta.
A frieza, ergue barreiras e anula perguntas.
‘O que houve? Quem tu és?’

Só pensou. Mas nada disse.
A arrogância que vem, intensa,
cala e congela a mão que escreve.
Calou.
Quis achar sua boca que franzia sorrindo.
Não achou.

Desejou o dia de ontem.
O antes do carteiro virar a esquina.
A época do samba.
Quando a esperança, viva
dançava com uma venda nos olhos,
iludida.

A desilusão só chega
quando a ilusão abre espaço.
Mania dela essa de acreditar
no que se faz reluzir.
Mania dele, que nunca enxergou:
quem engana, vai embora sozinho.

E fica só.

– Flávia Bernardi