Uma leitura de GRATIDÃO, de Domingos Barros da Costa. Editora Casa de Astérion. 2026 Porto Alegre

Têm livros que nos conduzem pela história. Outros, nos fazem interromper o caminho para guardar uma frase, reconhecer uma música, reencontrar uma lembrança ou, simplesmente, rir de “uma boa sacada”. GRATIDÃO, de Domingos Barros da Costa, conseguiu fazer tudo isso comigo.

É um livro que prende a atenção do início ao fim. Sua escrita fluida, envolvente e cheia de camadas apresenta uma capacidade deliciosa de fazer conversar personagens, literatura, música e vida. Há uma história que nos conduz, mas há também uma trama de referências, imagens e várias pérolas que nos convidam a demorar um pouco mais em determinadas páginas, como: “Tempestades de dentro caíam pesadas e a chuva mansa lá fora”.

Gosto quando a literatura encontra palavras para aquilo que nem sempre sabemos dizer… Porque, convenhamos, nem sempre o tempo lá fora acompanha o que desaba aqui dentro. Há dias em que o mundo parece tranquilo enquanto alguma coisa em nós atravessa a própria tormenta. E há (tantas) tempestades que não obedecem às estações, não é mesmo?!

Também fiquei com uma frase sobre desígnios vitais: “Aquele mar era meu destino desejado, ainda que o destino nunca seja o que se deseja, mas o que te acha, como descobriu Édipo” … E lá vem o famoso personagem mitológico nos lembrar de que, às vezes, nem adianta tentar negociar com ele! Sempre há algo de trágico e, ao mesmo tempo, de profundamente irônico nessa nossa pretensão de conduzir os acontecimentos, como se a vida precisasse respeitar o roteiro que escrevemos para ela. Quem dera…

A narrativa de Domingos é povoada por um repertório afetivo que sempre me agradou muito: Lygia Fagundes Telles, Aldir Blanc, Gal Costa, Cauby cantando Bastidores… Perséfone, os cabelos à Iracema, a Miss Suéter, o perfume da Coty… Referências que não funcionam apenas como cenário: vão compondo uma atmosfera, convocando memórias, desejos e imaginários. A gente quase escuta a trilha sonora enquanto lê… como a voz do autor, que tenho o prazer de ouvir vez que outra: com sua fala mansa e forte, num sotaque que já não é mineiro e nem gaúcho, mas que sempre tem algo interessante a dizer.

E GRATIDÃO expõe (bom) humor também. A “bênção” do personagem negro no “leite azedo” foi uma das minhas passagens preferidas. Confesso que gostaria de ver certas empáfias e absurdos deste mundo tratados com a mesma eficiência: sem discursos intermináveis, sem notas de repúdio, sem seminários sobre a natureza da arrogância. Apenas uma “bênção” bem dada e pronto! Talvez resolvêssemos boa parte dos nossos problemas civilizatórios ou, pelo menos, daríamos boas risadas tentando.

Brincadeiras à parte, admirei especialmente como o livro transita entre o dramático, o irônico, o sensual e o inesperado, sem perder o fio da narrativa. E há momentos em que a ficção nos devolve ao presente com um desconforto particular… certas questões políticas e religiosas que permeiam a história soam assustadoramente atuais. A tal bancada evangélica, por exemplo, não deixa de provocar inquietação e medo.

Apesar do gigante talento do autor, existem questões que, infelizmente, a literatura nem precisa inventar, basta olhar ao redor.

Terminei GRATIDÃO pensando que, para além do título, há no livro uma espécie de gratidão à própria matéria da vida: suas contradições, seus encontros, seus acasos, seus personagens improváveis e até esses destinos que, quando menos esperamos, dão um jeito de nos encontrar.

Talvez por estar também retomando meu próprio movimento de escrita, tenha me ocorrido que a literatura seja justamente uma maneira de fazer a vida caber em palavras, mesmo quando ela insiste em transbordar, mesmo quando a Primavera insiste em não chegar… Quando comentei essa impressão com Domingos, ele me devolveu uma frase que parecia prolongar a leitura: “O problema são as tempestades de dentro…”

Pois é. Para essas, não tem estação. Que cesse a chuva, que se acalmem as tempestades, então … mas na medida. Raios e trovões, cobras e lagartos, desilusões e paixões também são elementos para movimentar o mundo.

E que sigamos encontrando, nos livros e na vida, razões para prosseguir contando histórias.

Flávia Bernardi

Trilha Musical do Livro