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RIMAS COROADAS

Que a distopia do momento nos ensine a fazer rimas. Se isso acontecer, já sairemos mais inteiros dessa!

Andam perguntando sobre meus textos, ‘cadê’? E eu aqui às voltas comigo mesma, escutando sussurros, batuques e murmúrios só meus. Desses barulhinhos que vêm de dentro – que às vezes ronronam, outras tantas rugem.

Ando repassando minhas letras da infância, relendo (e rechorando) O Meu Pé de Laranja Lima, reorganizando despensas da alma, vendo a chuva cair mansa e demorada lá fora – sem me chatear se vou encharcar meus pés na calçada. Lado bom de poder ficar dentro de casa. Mas não cansei de inventar histórias, não. Isso nunca. Nem de romancear situações ouvidas ou vividas. Faz parte de mim.

Quando criança, olhava as veias dos meus braços e ficava imaginando que ali também escorriam palavras, letras… frases pulsantes. Tudo o que eu não vociferava, desaguava ali, acreditava eu. Certa vez, lendo Rilke, ele desviou o olhar do jovem Franz e me perguntou o que eu faria se não pudesse mais escrever? Nos meus devaneios, em meio àquelas páginas mágicas, respondi que mesmo quando minha mão não se mexia, o pensamento ditava. E isso não tinha como parar. Meu pensamento escreve e se inscreve o tempo todo. E desde que me conheço por gente é assim: tenho a mania de criar histórias. Se chovia, pensava que os pingos eram batuques ritmados que faziam o pensamento da gente dançar. E em manhãs chuvosas como hoje, na batucada desse momento de ensimesmamento, os armários escancaram suas portas para que me debruce sobre eles. A água da chuva faz desaguar lembranças. Descubro o tanto de coisa guardada que não serve mais: pessoas apertadas, planos desbotados, vínculos puídos, sonhos descosturados – que até deixei de sonhar. Prateleiras abarrotadas de dores antigas, que já nem mais doem. Estão ali por hábito ou herança: dobradas e engomadas. Basta abrir a porta para que escorram com a chuva: de volta pras águas dos rios (a mãe-natureza dá conta do que nos causou solavancos e soluços).

Sem tantos pesos pretéritos, fica mais simples fazer rimas e constatar que mágoa e dor são palavras que não rimam com quase nada. E com o pensamento batucando, tento “rimar romã com travesseiro” – como o fez Renato. Rimo beijo com bom dia. Rimo goiabada com queijo, magicando meu café da manhã. Rimo ritmo com consideração, economia com respeito, evolução com humanidade. Tento rimar paciência com a ânsia global da retomada. Compreendo que pensar não é a mesma coisa que conhecer, e que conhecer não garante o saber. Conhecer caminhos não garante que saibamos trilhá-los. Fazer rima não é tarefa fácil!
E nesse momento da vida, onde ela segue sem parecer se mexer muito do lugar, o vento sopra distópico. Numa câmera lenta que exige velocidade.
E se fosse começar tudo outra vez, que novas rimas faria? Faria? Agora o som do sino da igreja, da praça vizinha, se mistura à música do Gonzaguinha, interpretada pela Bethânia. E eu me perco nela. A chuva já fez as malas, mas meu pensamento segue batucando… Deixo que os sons façam rimas por si só.


“Começaria tudo outra vez
Se preciso fosse, meu amor
A chama em meu peito
Ainda queima, saiba
Nada foi em vão…
(…)
Ao som desse bolero
Vida, vamos nós
E não estamos sós
Veja meu bem
A orquestra nos espera
Por favor!
Mais uma vez, recomeçar”

– Flávia Bernardi