Solo le pido a Dios
Que la guerra no me sea indiferente
Es un monstruo grande y pisa fuerte
Toda la pobre inocencia de la gente
(“Sólo le pido a Dios”, León Gieco, 1978)
No dia em que concluí a leitura de Homens ao sol, de Ghassan Kanafani, soube logo depois, pelas notícias, que bebês e crianças em estado de desnutrição grave poderiam morrer caso não fosse liberada a entrada de ajuda em Gaza. Na sequência, vi o apelo de uma senhora palestina que carregava o sobrinho no colo, em fuga dos ataques israelenses, também em Gaza: ela implorava ao mundo por ajuda para parar o holocausto palestino: “Nos matar teria sido menos cruel! Não queremos sua comida! Não somos animais! Onde está o mundo? Queremos que a guerra pare… Estamos exaustos!”, dizia ela aos soluços.
Eu, sensibilizada com a leitura que me consumira – sobretudo nas páginas finais do livro –, também chorei. Há momentos em que a única saída parece ser chorar, porque os horrores e o genocídio provocam uma dor tão avassaladora que fica difícil articular palavras. É triste, apavorante, revoltante. A guerra (que naquele momento completava 591 dias)[1] se desdobra em tantas camadas de horror que se torna quase impossível acompanhar, elaborar, metabolizar.
Ghassan Kanafani foi escritor, ativista político e pioneiro da literatura de resistência palestina. Ele foi assassinado em 1972 pelo Mossad, o serviço secreto de Israel. Em Homens ao sol, narra a história de três homens que acreditavam que emigrar era a única chance de serem reconhecidos, de serem “alguém ao sol”. Sua escrita vai além da denúncia: ilumina confusões ainda tão presentes – muitas vezes intensificadas por discursos religiosos – como a associação entre o Israel bíblico e o Estado moderno de Israel. A literatura, nesse sentido, é uma via de conhecimento, porque nos convida a distinguir hebreus, judeus, sionistas, árabes… A leitura de Kanafani também parece contribuir para dar à Palestina um lugar no mundo – ainda que seja apenas no mundo de quem lê.
Se, como psicanalistas, acreditamos na força da palavra, talvez possamos acreditar que isso já salva algo. Ainda hoje, a voz dos governantes – infelizmente, os que seguem mandando – insiste em não reconhecer a Palestina. Falam em “os árabes”, como se toda aquela população fosse uma massa indistinta. A potência literária talvez esteja em oferecer visibilidade às nomeações adequadas, em revelar outros (e verdadeiros) lados das histórias estrangeiras, ajudando a desconstruir generalizações injustas. A literatura, afinal, é transformadora.
Adorno escreveu, certa vez, que depois de Auschwitz seria impossível escrever poesia. Mas não foi. Passado o momento do choro – inevitável! –, não só a poesia como também a literatura, a música, o cinema, a psicanálise seguiram sendo possíveis, apesar desse e de tantos outros “circos de horrores”. Como lembra Nietzsche: “a arte existe para que a realidade não nos destrua”.
Hoje seguimos contando os dias da guerra em Gaza, ainda que já não haja como calcular o custo humano, político e moral desse conflito entre Israel e Hamas. Milhares de mortos, inúmeros reféns, sofrimento incalculável e ruínas. Que ali há um genocídio, parece evidente. Mas por que os países não se unem para dar um basta? O Conselho de Segurança da Organização das Nações Unidas (ONU) – órgão com poder de determinar intervenções militares, enviar forças de paz e adotar sanções econômicas – permanece paralisado.[2] É inconcebível que não consigam ser unânimes em hastear a bandeira da paz.
Lembrei, então, da carta que Albert Einstein enviou a Sigmund Freud em 1932, perguntando-lhe se haveria uma forma de livrar a humanidade da guerra, já que mesmo com o progresso da ciência todas as tentativas de solução haviam fracassado. Perguntava ele: “É possível controlar a evolução da mente do homem, de modo a torná-lo à prova das psicoses do ódio e da destrutividade?”[3]. Em sua resposta, Freud advertiu: “A violência podia ser derrotada pela união, e o poder daqueles que se uniam representa, agora, a lei, em contraposição à violência do indivíduo só. Vemos, assim, que a lei é a força de uma comunidade. Todavia, ela é ainda violência, pronta a se voltar contra qualquer indivíduo que se lhe oponha”.
Dissuadir o homem da violência que nele habita não é tarefa simples: faltam palavras para dar conta do que pulsa no psiquismo. Como dizia minha avó: o furo é muito mais embaixo. E a promessa de que “o sol nasceu para todos”, de forma igualitária, está longe de ser verdade. Tanto que, ao final de Homens ao sol, os três personagens morrem asfixiados dentro de um caminhão, em silêncio, sob o calor escaldante do deserto. As últimas linhas ecoam, em forma de grito, uma pergunta dirigida a todos nós: “Por que eles não gritaram?”.
Essa pergunta gritou em mim, a exemplo da senhora com a criança no colo, como um lamento coletivo. Por quê? Talvez não tenham gritado porque sabiam que ninguém os escutaria; ou pelo medo da represália, da morte. Para eles, o mundo já estava surdo havia muito tempo. Mas, no fim, a morte veio de qualquer forma. O caminhão do livro transformou-se hoje numa Gaza sitiada – onde o silêncio da morte segue sendo a língua dos palestinos, sufocados, privados de ar, comida, espaço, escuta e humanidade.
Kanafani nos sacode com sua literatura real: berra através de seus personagens e nos arranca do conforto da indiferença. Ao morrerem calados, os três homens denunciam o barulho ensurdecedor de um mundo que escolheu não ouvir. É impossível sair ileso da leitura de Homens ao sol: escutar aquele silêncio impede qualquer um de fingir que não ouviu.
Talvez minha avó soubesse, mesmo sem saber, que o que nos move é justamente esse furo – a falta que dói, mas que também abre espaço para o desejo, o sonho, a invenção. A psicanálise não oferece respostas prontas – ainda bem! –, mas nos convida a sustentar perguntas, a não recuar diante do mal-estar, a escutar o que insiste, mesmo quando não se diz claramente. Como psicanalistas, como leitores, como seres humanos: não podemos deixar que o horror se normalize. Que sigamos perguntando, duvidando, sofrendo com o sofrimento do outro. Porque, no fim, é nessa escolha – a de não se anestesiar – que talvez ainda resista alguma forma de esperança.
Se a literatura e a psicanálise têm algum poder – e eu acredito que tenham –, é este: o de romper os silêncios. O de escrever e dizer um grito. Um grito que ecoe até que o sol, enfim, possa nascer para todos.
Flávia Bernardi
KANAFANI, Ghassan. Homens ao sol. Rio de Janeiro: Tabla, 2023.
[1] Cálculo feito desde que o Hamas realizou um ataque surpresa ao sul de Israel, em 7 de outubro de 2023.
[2] Estados Unidos, Reino Unido, França, Rússia (antiga União Soviética) e China são membros permanentes do Conselho de Segurança da ONU. Além deles, há 10 membros rotativos, eleitos pela Assembleia Geral para mandatos de dois anos. Atualmente: Argélia, Benim, Brasil, Gabão, Filipinas, República da Coreia, Serra Leoa, Eslovênia, Suíça e Malta. Quando algum dos cinco permanentes veta uma medida, ela é automaticamente barrada.
[3] Em 1932, a Liga das Nações pediu a Einstein que explorasse caminhos para a paz. Ele, por sua vez, convidou Freud. As cartas foram publicadas em 1933, em francês, inglês e alemão.
