
“às vezes sua risada soa quando tudo está em silêncio, como se isso me lembrasse que a vida nunca morre”
(Elvira Sastre)
Nem bem tinha amanhecido o dia na casa nova e o lembrete na geladeira trouxe a notícia: além de farofa e leite, por lá também faltava tristeza. A filha, com então 11 anos, parecia denunciar que sobrava alegria… fazendo questão de anotar isso na lista presa à porta da geladeira.
Veio um sorriso de alívio, mas em seguida veio uma ruga na testa: pra quem já escutou diversas vezes Lacan dizendo que é a falta que produz o desejo, claro que a nota pendurada no eletrodoméstico de aço fez brilhar uma certa preocupação.
Se falta tristeza, sobra o quê? A falta da farofa e o leite prestes a acabar, cumpririam o espaço da falta necessária? A falta de tristeza renderia desejo de viver? Céus, o que faltava faltar?
Ser mãe é entrar na aeronave da dúvida, das incertezas… um planeta onde o medo divide o céu com a alegria: lua-de-amor com sol-da-culpa.
Parece que sempre está faltando algo, e, quando não falta, fica faltando algo também!
Os filhos trazem com eles o desafio de acharmos a justa medida entre oferecermos alegrias e oportunidades e criarmos seres generosos, gratos e esforçados. Colocá-los em contato com o mundo, tornando-os independentes para voar, mas com a certeza de que terão todo o amparo necessário.
Uma retaguarda de amor que não encarcere, um impulso ao salto que não pareça negligência.
E esse balanço, sustentado pelas cordas da ambivalência, provocam delícias e tonturas.
Enfim nasceu o sol e deu pra lembrar de que Lacan, quando falava de falta e desejo, não estava tomando como objeto de reflexão somente os desejos e vontades nossas de cada dia – como a farofa, o leite, o colo…
Ele tinha em vista, naturalmente, o ‘desejo’ que de fato interessa ao psicanalista: o desejo inconsciente.
Ali, na vida doméstica, o inconsciente vai ser tudo aquilo, do mundo psíquico de cada um, que faz as vezes de ‘mobília da casa’… que pode propiciar uma comunicação mais fluida, uma convivência mais sensata e sincera: atos e linguagem leais entre si.
Incrível como os conhecimentos armazenados durante a vida apaziguam o coração: são o acender das luzes, o nascer do dia. Como a avó dizia, de nada valem as pernas ativas se não podemos contar com uma cabeça boa.
Deu pra entender que a falta de tristeza também pode ser um indício de que sobra amor… Claro que tristezas sempre existirão (e são importantes!), mas talvez o essencial é que não sejam tão intensas e traumáticas a ponto de fazerem as alegrias sumirem.
É esse equilíbrio que prepara o sujeito para transpor os obstáculos da vida.
A mesma menina que, aos 7, não podia sequer se imaginar fazendo faculdade em Paris, hoje, aos 15, sonha com seu próprio apartamento, intercâmbios e infinitas coisas – o mais longe possível de casa, como todo o adolescente precisa se imaginar.
Entendi que asas são feitas de felicidade.
Não faltou tristeza um dia, ora bolas… sobrou foi alegria para voar agora!
– Flávia Bernardi