
Uma grande amiga dos tempos de escola leu o título do meu blog (Na TPM Eu Deixo de Amar) e me perguntou:
– E na menopausa, fazemos o quê?
Sem nem pensar muito, respondi:
– Na menopausa matamos o amor!
Rimos. Mas há frases que, depois de ditas, ficam por ali, fazendo suas pequenas estripulias. A gente segue a vida, e elas seguem reverberando… pedindo explicação.
Pensei em Drão, do Gilberto Gil, e naquela ideia de que o amor precisa morrer para germinar (“Tem que morrer pra germinar (…) O amor é como um grão/Morre, nasce, trigo/Vive, morre, pão”). Há uma delicadeza nessa morte que não significa necessariamente fim, mas transformação. O amor que conhecíamos talvez já não nos sirva do mesmo jeito. Certas formas de cuidar, de ceder, de esperar, de suportar, podem precisar ser deixadas para trás.
Talvez porque o amor, como tantas outras coisas, não sobreviva apenas de permanências. Há momentos em que algo precisa morrer para que outro possa existir. A questão é que nem sempre sabemos distinguir aquilo que está acabado ou acabando, daquilo que apenas mudou de forma. As convenções sociais e culturais são como venda nos olhos da gente: não nos deixam ver o óbvio.
Lembrei, então, de Maiakóvski e dos versos de ‘E então, que quereis?’[1]: “Não estamos alegres,/é certo,/mas também por que razão/haveríamos de ficar tristes?/O mar da história/é agitado./As ameaças/e as guerras/havemos de atravessá-las,/rompê-las ao meio,/cortando-as/como uma quilha corta/as ondas.”
O mar da história é agitado. O das nossas vidas e corpos também. Durante muito tempo, aprendemos a reconhecer suas marés, a desconfiar dos dias em que tudo parece fora do lugar, a atribuir apenas à lua certas mudanças de humor. A TPM, ao menos, tinha calendário. Podíamos contar os dias, esperar que passasse, pedir desculpas (ou não!) e acreditar que logo voltaríamos a ser quem éramos. Mas, e quando as águas resolvem se agitar por várias luas?
A menopausa chega sem pedir licença, embora não seja exatamente uma visita inesperada. Sabemos que virá, ouvimos falar dela, fazemos piadas, colecionamos histórias alheias. Ainda assim, há algo de surpreendente em perceber que o corpo, esse velho conhecido, pode mudar as regras do jogo sem nos consultar… O sono se altera, a temperatura sobe sem que o verão tenha sido convidado, a pele parece guardar outras notícias. E há dias em que a paciência, antes tão bem distribuída, se torna um recurso escasso. Não é precisamente tristeza, tampouco alegria. Parece ser apenas o mar, que já não obedece às antigas previsões.
E o amor, onde fica nessa história? Precisa mesmo morrer?
Não, não acho que se trata de matar o amor… trata-se, sim, de matar uma ideia de amor: aquela que exige de nós a mesma mulher para sempre. A mesma disponibilidade, a mesma paciência, o mesmo corpo, a mesma disposição para compreender tudo e todos. Essas mortes que não merecem luto, porque há versões de nós que já cumpriram seu trabalho. Têm partes nossas que precisam morrer.
Em 31 de agosto de 2016, ao encerrar sua fala depois de deixar a Presidência da República, Dilma Rousseff recorreu aos versos de Maiakóvski. Independentemente das posições políticas de cada um, há algo que me toca nessa imagem: uma mulher, depois de ocupar um lugar historicamente reservado aos homens, escolhe terminar sua fala evocando um poeta que nos lembra que as ameaças e as guerras precisam ser atravessadas. Não sei se ela pensava nas águas da história, nas próprias águas ou em ambas… Gosto de imaginar que os versos possam pertencer a todas essas travessias. Porque há momentos em que atravessar não significa sair intacta: a quilha não pede licença às ondas, nem as ondas deixam de existir porque um barco passou. O que muda é o caminho aberto no meio delas e a nossa passagem por ali. Seguimos.
Talvez envelhecer também seja isso: descobrir que não precisamos permanecer iguais para continuar sendo apenas nós. Que podemos perder algumas certezas, abandonar antigas maneiras de amar, rever acordos que pareciam definitivos. E, o melhor: que nem toda agitação anuncia um naufrágio… pelo contrário. Talvez a gente comece a matar o amor quando deixamos de confundi-lo com a obrigação de estar sempre disponível. Quando dizemos não a um convite sem precisar inventar uma desculpa elaborada, quando respondemos uma mensagem depois, quando já não nos oferecemos para resolver o problema de todo mundo. Pequenas mortes, quase todas sem velório. Algumas, com um alívio difícil de confessar. Não sei se é o climatério que nos ensina essas coisas, pode ser que ele apenas torne mais difícil fingir que nada está mudando. Ufa!
Volto à pergunta da minha amiga e à resposta que me escapou tão depressa, assim, de sopetão. Talvez eu tenha exagerado, mas acho que não. De qualquer maneira, se o mar da história é agitado, e se as águas femininas também conhecem suas tempestades, que ao menos nos reste a coragem de atravessá-las sem a obrigação de sair do outro lado exatamente como entramos. E, se algum amor (ou amizade, trabalho, pensamento, etc..) precisar morrer pelo caminho, que seja aquele que já não nos deixa navegar.
[1] “E então, que quereis?”, de Vladimir Maiakóvski. Poema escrito em 1927, tradução de E. Carrera Guerra. Dilma encerrou o seu discurso no dia 31 de agosto de 2016, data do seu impeachment, lendo exatamente a íntegra desse poema.