
“…as décadas seguiam nos atravessando,
duras como facas.
Permitíamos isso, sei bem.
Eu mesma afiava o fio
com o cuidado de quem tem horror
só de pensar em perder mais uma vez.”
(Flávia Bernardi)
Às vezes, eu insistia em voltar para o quarto. Foram anos tentando entender por que eu tinha ido embora, por que havia fechado a porta naquela noite. Me enxergo ali, dividida entre a louca pelo sabor dos lábios dele e a que tentava escapulir.
Lembro de cada detalhe da noite, iniciada quando a parceria de anos atrás voltou a sentar-se conosco à mesa de jogatina. Eram meus amigos e, instantaneamente, viraram dele, como se por mágica: aquele baralho embaralhava agora cartas e vidas. Ele falava e escutava com doçura e simplicidade; sempre soube adequar sua vasta cultura a qualquer ambiente, sem nenhum ar de soberba.
Meu desejo era que a noite, que mal tinha começado, não terminasse nunca. Já fazia muito tempo que não nos víamos. Ele tinha rodado alguns continentes, e as décadas seguiam nos atravessando, duras como facas. Permitíamos isso, sei bem. Eu mesma afiava o fio com o cuidado de quem tem horror só de pensar em perder mais uma vez.
Dizia que ia embora, mesmo quando queria ficar. E o medo nem precisou apagar a luz já apagada: só teve o trabalho de me levantar e empurrar para fora do quarto.
Costas na porta, e ainda com a maçaneta na mão, lembrei do livro que chegou pelo correio, com dedicatória inesquecível. Das músicas do Chico e do Gil gravadas na fita cassete. Das cartas, dos cartões. Lembrei do namorado, anos antes, com o mesmo nome que o dele.
— Você está escolhendo o errado – me disse, antes de entrar no ônibus. Chorei, mas mantive a escolha. Achei que nunca caberíamos na vida um do outro.
Tem horas que ainda fico pensando se entrei mesmo na tua casa, quando fui conhecer a cidade universitária da “melhor cidade da América do Sul”. Isso permanece aprisionado naquele lugar do saber-não-sabido, da dúvida. Lembro do esforço para incluir a visita no roteiro da viagem e de ter te imaginado em todos os lugares que vi: sob a árvore cuja sombra convidava à leitura, no refeitório que tentei espiar pela janela. Imaginei teus festejos, mas também tua solidão.
Aquela minha ida surpresa a um lugar tão teu, mas onde tu não estavas, foi uma experiência meio borgiana: um aleph que me oferecia a visão de tudo e trazia um excesso de mundo. Porque ali eu podia enxergar o teu mundo com os meus olhos, mas não conseguia apreender nada.
Ao te imaginar sentado na poltrona de grama, à sombra da tipuana – ou seria um timburi? -, enxerguei Borges nas tuas mãos. Eu era a garota do interior, o ponto microscópico que continha o infinito das páginas que lias. E tu eras quem sabia de mim, de ti e do mundo. (Mas, às vezes, ainda duvido de quem espiava quem!)
Todo ano sonho em visitar a casa onde ele já nem mora. Como se preservasse os rituais da lembrança, tentando impedir que o tempo a apagasse. Hoje, entendo que talvez o humano só consiga existir através de recortes e esquecimentos. Poder ver tudo seria também perder a possibilidade de desejar, interpretar, escolher.
Talvez por isso nossa história, tão cheia de faltas e ausências, permaneça preciosa.
Dá para acreditar nisso ou, tal qual Borges, deslizarmos para a dúvida não apenas sobre o Aleph, mas também sobre a própria Beatriz do conto: será que ela existiu mesmo?
Porque talvez aquilo que amamos seja também uma construção imaginária sustentada pela distância, pela perda, pela idealização.
Anos depois, bem mais de vinte, tive coragem de compartilhar minha indagação:
— Por que será que eu saí daquele quarto? Por que acabei com a noite?
— Aquela noite nunca acabou – disse.