
Como numa marcha desobediente, tem vezes que os pés seguem direções diferentes das que gostaríamos de escolher.
Espécie de torre de controle ditando regras, com vocábulos estranhos no som da própria voz:
o estranho é justamente aquilo que é familiar.
Sempre escutara que amor era realmente aquilo que faz o gozo ceder ao desejo, atribuindo ao objeto um real valor – valorizando a serventia para não haver apenas servidão. Aprendera que amar era não servir a quem também não lhe serve, para assim poder servir em si mesma e poder vir-a-ser.
Quando, aos dezesseis anos apaixonou-se por ele, parece que tudo isso vazou ralo abaixo.
Aquela tarde dava a sensação de que a terra estava muito mais próxima do sol. O calor e a claridade dificultavam cada passo – apesar de estar difícil até mesmo ficar parada. Naquela fila estática, frente aos portões enferrujados, onde o crime e a desonestidade parecem corromper até mesmo o duro minério, ela enxergou que seus valores tinham sido devastados também – durante essa dezena de anos que passara com ele. O amor, que até então pensava que sentia, era chave certeira que, sem grandes esforços, havia escancarado a indignidade que todas as boas censuras trancafiaram um dia. Lembrou que a dor havia crescido, nesses anos todos, à medida que a proximidade foi diminuindo o tamanho dos biombos da conquista. Até tudo transformar-se num cômodo só… Como se, depois que o outro está apaixonado, aprisionado, todas as esquisitices e, até mesmo as indelicadezas, pudessem ser escancaradas. Há tempos ele não lembrava mais do aniversário dela, nem a parabenizava quando ela o lembrava; não dava mais bom dia, não defendia seu nome quando alguém tentava jogá-lo na lama, não buscava sua mão assim que seus pés tocavam na calçada.
Era esse pseudo-amor o raio cegante? Essa ideia de ser amada a qualquer preço que dificultava tanto que enxergasse o não-querer?
Era domingo, mais um dia de visita. Dia de visita íntima – que de íntima não tinha nada. Pensou que, caso cassassem seu direito de visitá-lo ali, naquele cárcere – privado também de dignidade – seria castigada… mas, ao menos, seria poupada de ter que ver (e viver) as feridas expostas pelas velhas transgressões feitas e pelas novas parcerias de infortúnio: nunca mais seriam os mesmos.
Ter envolvido-se em falcatruas contra o sistema, aliado-se à máfia dos sanguessugas que rouba do povo para engordar a máquina toda, tinha sido o crime que o levara para trás das grades. Ter mostrado-se tão egoísta era o crime que cometera contra o amor jurado: no alto da lista do que compõe e guarda os bons e verdadeiros vínculos, a generosidade e a consideração figuram absolutos. Sem isso o amor é fosco: e algumas coisas só existem por conta do brilho que tem. O amor é uma delas. É o brilho dele que acende a chama dos olhos daqueles que decidem (e desejam!) serem cúmplices.
Saudades de Robin Hood, seu herói da infância. Também ela se achava minoria: queria ter sido salva por ele. Queria ter visto ele tirar a poesia das nuvens para dar ao menos uma para ela (já que sempre escrevera tanto, para tantos!) e lembrou que nem conhecia o desenho da sua letra. Nunca vira um garrancho sequer. Nunca ganhara uma pétala de flor, um bombom para adoçar seu dia, um bilhete com uma frase de admiração.
Como podiam aquelas grades todas não controlarem o controle exercido por ele, lá do lado de dentro? Como ele, mesmo que de longe, seguia controlando-a?
Era um controle remoto? Sem pilhas? Ela mesma punha as pilhas pro outro poder seguir brincando, num pseudo controle?
A quem dava satisfações? Quem tinha poder de lhe comandar mesmo sem nada concreto que sustentasse essa opressão?
Ele estava preso e ela também. Não tinha amarras, nem algemas, nem mandato algum que a obrigava estar ali… mesmo assim estava. Quis sair, quis correr, mas não conseguia. Algo a petrificava naquela fila de mulheres (indo ao encontro de um homem; perdendo-se mais um pouco de si mesmas!): e deu mais um passo, mais um, mais um… um pé era servidão, outro serventia; dor e gozo, desejo e medo, amor e ódio. Deu-se conta da dualidade da sua marcha frente às coisas, mas ainda não conseguia parar. Dar-se conta disso ainda era pouco, pensou. Mas já era bem melhor do que nada.
Viu seu rosto refletido no vidro empoeirado. Reconheceu-se: estava ali! “Não é a pedagogia do afeto que nos melhora, mas a pedagogia do assombro”, disse Domenico Starnone.
Entrou, desejando sair assombrada. Talvez assim, seria a última vez que entraria ali.
– Flávia Bernardi