SONHAMOS TODAS, JULIANA!

Talvez os amores primeiros tenham uma força absurda mesmo:

ficam tatuados na alma e, volta e meia, despertam.

Aí, musicam os sonhos, contando com uma orquestra pretérita inteirinha:

e fica sempre uma porta entreaberta…

Não sabia bem o que encontraria naquele dezembro febril. Revisitar Saravejo, após  tanto anos andando pelo mundo, só reforçava a sensação, sempre tida, que seu lugar era mesmo ali. Ao tocar o solo com seus pés – inchados, depois de tantas horas dentro do avião –  lembrou do seu Hilário, o vizinho estrangeiro bem humorado, do vilarejo onde nascera, que repetia sempre: “a pátria verdadeira é aquela onde o cheiro, o som e o ar nos dizem, em uníssono, que é a ela que pertencemos”. Fechou os olhos e sua alma se abriu toda: a atmosfera daquele lugar lhe abraçara, como sempre. Mas dessa vez o abraço parecia mais apertado, mais verdadeiro;  como se a maturidade tivesse lhes dado força. Ali estava… e era inadiável esse reencontro.Pisou firme no solo, tentando deixar pra trás a insegurança – antiga inquilina do seu sótão – que dificultava os passos na hora de exigir seus direitos: sempre soprava a brisa do ‘deixa disso’, e o vento forte do ‘não merecimento’ era petrificante.

Nesses anos todos – de silêncios e distâncias – imaginou mil coisas: “A imaginação é a memória que enlouqueceu”, disse Mário Quintana. E seus sonhos tentavam passar a limpo o que ficou pra trás: criando desfechos, achando saídas, tentando esquecer… quase 30 anos de imaginação sonhada e dor sentida não trouxeram, ainda, elaboração suficiente para poder descansar. Sentimentos e vivências são energias pululantes: vão dando as mãos para significados outros, encontrando novos personagens, adquirem força e tamanho; ocupam tanto espaço que se materializam. Os transeuntes desconhecidos ganham os traços da pessoa inesquecível: Moacyr era a máscara do passado que insistia em ressuscitar, aparecer sem hora marcada e soprar no ouvido: ‘Como teria sido a vida se tivéssemos permanecido juntos? Como seríamos hoje?’

Nos dias tristes essa voz onírica era mais grave; nos ensolarados, a soada apenas cantarolava: como um som ao longe.

 Sonhava sempre com seu rosto conhecido, mas a fala surgia adulterada pelo tempo e novas vivências: tinha um outro tom, uma cadência diferente… uma voz modulada por tudo que não foi (é incrível, aquilo que não chegou a ser, na maioria das vezes, marca muito mais!).Tentava desistir do pensamento; mas era justamente aquele pensamento que não desistia dela: relembrar o passado e imaginar o futuro tinham sido os grandes larápios do seu presente. 

O quarto do hotel tinha uma cor cítrica nas paredes: casava certinho com a doçura que trazia na alma esperançosa. Naquela noite sonhou mais uma vez. O mesmo de sempre, com ele: ‘Por que esse sonho insistira tanto? Que respostas lhe exigia?’ Esse rosto – estranho e conhecido – que vagava nas suas elucubrações oníricas, representava uma charada da sua vida inteira: Moacyr era a simbologia de todas as figuras masculinas que marcaram seus dias desde o início… essas “tantas coisinhas miúdas” que Gonzaguinha canta, no seu inesquecível Grito de Alerta: miudezas que, somadas, tornam-se grandezas… criam sonhos, nos despertam, nos obrigam a acordar! Entender o que passou é a única forma de seguir em frente e poder dormir.

Pois bem, que Saravejo, no seu silêncio pós guerra, lhe dissesse, com todas as letras, porque também lhe escolhera como filha. Ou, se não dissesse assim tão facilmente, que ao menos, dessa vez, lhe desse chance de viver todas as histórias que tinha deixado inacabadas por ali. A voz da paz é esclarecedora: o acender das luzes faz sumir os fantasmas – aí fica mais fácil descansar!

E hoje o sol brilhava mais claro do nunca.

– Flávia Bernardi