ANA MARIA, CHEIA DE GRAÇA

Foi nas asas da independência, de um longínquo 7 de setembro,

que a menina de sardas nasceu, cresceu, sonhou; casou com João, teve filhos e me permitiu sonhar também…
Mães não geram apenas filhos, geram sonhos neles também!

Das boas lembranças da vida, uma delas é das tardes, depois do almoço, em que limpávamos a cozinha ao som da Jovem Guarda: panos sobre os pés, num twiste enjambrado que rendia dança, brilho no chão e gargalhadas. Eu tentava imitar teus passos – tão ágeis sobre os trapos coloridos – deslizando pela cozinha como se fosse muito fácil fazer aquilo. Talvez até fosse… mas para mim, filha, era um malabarismo tentar me equilibrar ao mesmo tempo que decorava as letras daquelas músicas todas: exercícios que exigem corpo e coração, e marcam a vida para sempre.
Tu preferias o Roberto; eu, sempre fui mais fã do Erasmo… mas a dupla nos encantava e seguíamos nós, também, nos aventurando em nossos duetos musicais: certas de que a vida nos reservaria muita coisa para ser cantada (principalmente, para cantarmos juntas!).
Gostava de te ouvir contar sobre tua adolescência, as novelas de rádio, tuas tardes de domingo: um mundo mágico que eu conhecia a partir dos teus relatos e ficava imaginando as cenas… encantada!, imaginando como seriam meus dias dali pra frente.

Tu sabias o nome de todos os atores dos filmes que assistíamos juntas: Paul Newman, Gregory Peck, Anthony Perkins, Marlon Brando… Conversava sobre os enredos, propunha reflexões, desejava me apresentar Hitchcock e todos os clássicos do faroeste… torcendo que passassem na TV – única possibilidade de reprise na época. Teu mundo era tão grande que fazia com que eu desejasse inflar o meu.

Ainda enxergo aquele teu vestido bordô poá, o batom de embalagem verde-escuro na gaveta do banheiro, tua caixa de recordações – guardada no alto do roupeiro; a pulseira que vinha tilintando, anunciando a tua chegada… hoje ela mora aqui no meu pulso e, cada vez que ouço o barulhinho, te sinto de mãos dadas comigo.
Ela ficou como um símbolo da presença: argolinhas douradas marcando um tempo que não volta… mas que também não faz muita falta quando se tem tantas e tantas boas memórias: e isso nós temos! Contigo, aprendi que as verdadeiras ‘argolas’ que unem as pessoas não são feitas de ouro, mas de boas vivências, de sentimentos verdadeiros que se fazem sentir e nos acompanham.

E, acompanhada, aprendi de ti uma liberdade que hoje também tento dar: só sei criar porque minha imaginação podia voar solta no teto da nossa casa… eu encontrava teu sorriso para minhas invenções e teu olhar brilhava quando te apresentava meus sonhos todos! O 7 de Setembro, que sempre foi teu, trouxe a independência que precisaste ter, sendo mãe com o marido longe: crescemos felizes com tua disponibilidade amorosa, tua paciência sem fim… a voz que cantava macia, enquanto tua mão quentinha massageava a barriga, mandando todas as dores embora.

Aprendi a ser independente também e, a cada passo, a cada conquista, enxergava tua satisfação: e, tantas vezes, talvez tenha feito coisas por nós duas – pelo trânsito menos congestionado da minha geração! Aprendi que o tempo passa muito rápido para ficarmos tão presos ao relógio ou para achar que é tarde demais para assistir a um bom filme com pipoca!

Tu me deixavas brincar vendendo frutas pela vizinhança; sabias que era um exercício pra comprar meus desejos: aprendi a querer, a sonhar e a pagar o preço das coisas… porque a vida é mesmo uma grande feira livre.

Hoje, tantos dos nossos gostos e vivências são diferentes, mas nossa parceria segue igual: “Mude suas folhas, mantenha suas raízes intactas”, dizia Víctor Hugo. Afinal, a vida é um eterno florescer… e a natureza, se livre, faz novas e belas pinturas a cada amanhecer!

Que bom que a vida tem sido generosa conosco… que tem nos dado tempo e oportunidade. 73 anos de vida e um jardim repleto de novas flores com as tuas raízes: Gabriel, Maria Clara, Beatriz, Malu e Maitê…

Abrir a janela e sentir o cheiro bom da vida – que segue e floresce – é motivo suficiente para dançar: seja para lustrar o chão, seja para celebrar o que se tem!