
A mulher de verde, cujo nome não sei, traz consigo avisos que nem sempre quero ouvir. Ela chega doce, toca minha face de um modo que me faz corar e diz: “Só construímos saberes quando estamos acompanhados…”. Aí estende a mão, me conduz até as dunas e pergunta:
“- Minha cara, alguma vez você sentiu coisas que não poderia sentir? Ouviu vozes que não poderia ouvir? Alguma vez insistiu em catar um fósforo para acender a vela, quando o interruptor estava bem ali?”
Aquilo tocou intensa e surpreendentemente minha alma, fazendo pensar nos tesouros escondidos debaixo da cama, enquanto ficamos esfarrapados por aí. Andamos maltrapilhos, apesar da arca repleta, no final do arco íris que também temos em casa.
Passei meus dedos pela areia meio dura, meio solta, e tentei rascunhar algo. Uma palavra, um desenho, alguma forma que pudesse materializar tudo aquilo que nem sabia que sentia. Era uma estranheza que mudava toda a lógica tida até agora. Na minha frente, um espelho… eu mirava e enxergava uma face que, apesar de minha, não era mais a minha: ‘¿Como lo iba a saber, que te vería otra vez? ‘
Era um território familiar estranho… conhecido e desconhecido ao mesmo tempo.
Estranha é justamente a aventura de experimentar o novo. Isto dá a possibilidade de encontrar novos sentimentos: como o escultor que dá ao bronze uma forma que nunca imaginara. Esculpindo, ali, pensei que quando te vi pela primeira vez, desconstruí todas as experiências e certezas tidas até então.
Ela falou, a mulher de verde, com voz de Clarice e bem baixinho, com seu hálito alcançando meu lóbulo direito: “- É difícil saber o que dá pra fazer com aquilo que não vem.”
Parecia mesmo ela, com aquela facilidade que só ela tem de tocar a alma da gente e nos envolver em suas palavras e tramas e gostos que saem das páginas apesar de serem impalatáveis pela sua concretude. Peguei no ar duas ou três palavras daquelas e tentei acomodá-las no meu colo, para niná-las – como me sentia ninada ali, com ela, na areia. Essa poeta materializada, que tocava minha mão e minha orelha, ajudava que eu reconhecesse aquela estranheza toda; acolhesse e assumisse-a como minha.
Precisava escrever uma nova história a partir daquilo tudo: esse estranho que me habitava, que era meu, era eu… mas eu não sabia.
Temi o silêncio. Lembrei dos silêncios. Desejei que aquela ideia de silêncio silenciasse… encostei meu pé no dela, ambos sujos de areia, tentando preencher aquele momento tão repleto de vazios. Tocar sua pele produzia alívio.
É bom quando existe uma sintonia delicada, onde o outro nos oferece algo que é exatamente o que precisamos. E ela me oferecia… e me oferecia toda aquela areia como folha em branco para que eu transcrevesse ali minhas histórias. Sua oferta era generosa e me acolhia. Me dava a mão, me dava a vida!
Rascunhei então planos que nem sei se poderia… mas me autorizei a escrever. Sonhei com a areia, ouvindo o canto da sereia, pele a pele com a mulher esverdeada que me dava vida. Pensei que ela bem poderia ser eu mesma, um duplo de mim que por acaso agora eu via ali.
Talvez ela era tudo aquilo que não tinha sido suficientemente criado, entendido ou autenticado por mim. Sendo eu e andando de azul por aí, poderia rodopiar como queria: sem precisar das minhas melodias familiares. Quis aposentar meus pés, que parecem saber dançar sempre as mesmas músicas… que só obedecem a marcha ritmada da herança recebida.
Escrevi na areia novas canções: compus ali, com o canto da sereia, arranjo, letra e música… caso não pudesse dançar livre, ao menos saberia que existem novas partituras.
Se eu fosse capaz de deixar, poderiam reger minha vida a partir agora.
Olhei no espelho e me reconheci. Existia. Eu me pertencia. E a estranheza azulada foi tingindo o verde… Numa mistura rítmica deixei a pena valsear no papel.
É assim que os pensamentos se inscrevem.
Oscar Wilde diria: ‘pena, papel e veneno’. E eu sorriria, concordando com ele… mas acrescentaria, destemida e segura: ‘também antídoto, Dichter… também antídoto!’.
E segui escrevendo minhas histórias.
– Flávia Bernardi