A HORA SEMPRE É AGORA (Apesar do que dizem os ponteiros!)

Sentadas juntas, aprenderam que romance é o gênero literário mais longo da nossa língua.

Separadas pelo inevitável – mas ainda juntas – descobriram que os romances tornam-se eternos

quando as mãos criativas se unem e, interpostas, tecem segredos, dando vazão aos sentimentos…

Compreenderam que romance é, na verdade, a mágica da escrita!

Olhou pro seu relógio de pulso antigo. No aro dourado e desgastado, ao invés do número seis, a letra S. Lembrou do nome dele. E seu pensamento rodopiou numa retrospectiva veloz, despencando ladeira abaixo. Parou no exato momento em que se despediram, tempos atrás. E entendeu que quando se perde o Norte, o Sul naufraga também.

Nunca quis ter alguém como bússola norteadora, mas talvez essa fosse uma das facetas do amor. Amor? Sim, amor. Porque já entendera que o amor podia vir de várias formas, intensidades e durações. Na adolescência, amou como nunca o colega que ocupava todo o espaço romântico de sonhos e desejos. Ele se chamava Âmbar: e tinha um cheiro doce e uma pele quente. Quando deixou de amá-lo, pelos dezessete, deixara também pra trás a ideia de que o amor é flecha única e com destino certo. Entendeu que o sentimento se transforma, se ressignifica… e que essa ideia de amor único era mais uma das tantas roupas apertadas que por tanto tempo fez uso (esses pesos e apertos que só geram desconforto, que as luzes da vitrine não compensam a falta de ar do zíper que sufoca!).

Naquele instante os ponteiros se tocaram mais uma vez, tal qual o badalo dos sinos ao alto: meia-noite, seis e meia, meio-dia, seis e meia… Seis meses foram suficientes para eles. Qualquer possibilidade de encontro é mágica. Um ponteiro alcançava o outro como se numa eterna busca. E cada vez que se sobrepunham, lembrava o calor da pele de Sinval. Ele chegava manso, pé ante pé, como se contando os segundos para colocar seu braço na mesma manga do casaco… num colorido onde os sonhos de ambos ficavam entrelaçados – tramados na mesma linha do tear de pente liço herdado da avó. Desde sempre, naquela família, os amores ardentes eram tecidos assim: inesquecíveis! Viveram dias de verão, com o colorido do amor. Pareciam dias de férias, onde tudo pode, onde não há rotina. Onde o único planejamento é viver. Cada fugaz encontro deixara o momento impregnado em sua memória.

O tempo traz a mudança das estações. O intenso calor deu espaço para a queda das folhas esmaecidas. O sorriso amarelou. O gélido inverno trouxe a ainda mais fria despedida.

Agora, sentada no alto de toda aquela saudade, tentava tecer palavras dentro de seu corpo que parecia seco de desamor. A falta de norte faz com que a imagem no espelho se transfigure, perca a nitidez. Por muito tempo acreditou que Sinval levara consigo seus sonhos mais doces, seu baú de linhas coloridas… Decidiu fazer um trabalho delicado, como uma escritora-cirurgiã: procurando algo, dentro dela, que lhe relembrasse que estava viva, que pulsava. Tentou ir ao passado, vasculhando fotos e álbuns e caixas de recordações da memória pra ver se despertava algo dentro dela, mas nada… Ainda nada. Sentia-se seca. Como se seu interior romântico fosse oco.

Lembrou mais uma vez da despedida: na metade daquele último beijo, ela já estava sozinha. Os lábios dele ainda estavam lá, enquanto seu coração já estava longe. Despedida é a sensação de alguém tocar a campainha e correr pra porta dos fundos: a única certeza é de ter escutado algo. Fica a rua deserta, o espaço sem vida. Não tinha ninguém mais lá.

Desde então, não conseguira esquecer de quando ele saíra pela porta da frente: rápido e doído, movido pelo fim que tiveram. Lembrou de que naquele dia, ela ficou ali, como na cena de um filme, atrás da porta, olhando pro relógio. Era seis e meia. Ficou desejando poder alterar o correr das horas. Ao mesmo tempo que os dedos dela mexiam os ponteiros – adulterando o tempo – a realidade pudesse acompanhar o movimento: trazendo-o de volta, para que ele lentamente tirasse o casaco e ficasse. O tempo não voltou, e ainda sentia os lábios dele nos seus: às vezes delicados, macios, outras agressivos, penetrantes, intensos… Sempre ouvira que o tempo não volta, voa; e que precisava seguir o ritmo do relógio, indo em frente – na liberdade natural da passagem das horas. Queria e não queria essa liberdade, porque alforriar seu pensamento daquele encontro dos ponteiros, quatro vezes por dia, seria como deixar Sinval sem vida. Nunca mais saberia nada sobre ele, mas sempre iria querer saber, qualquer coisa… mesmo que tivesse nas mãos apenas o negativo da fotografia, sem nunca mais poder revelá-la.

Agora, às seis e meia, em algum lugar do mundo, talvez ele também, como ela, se perguntava porque não conseguiram manter os ponteiros no ritmo do encontro, mesmo quando distantes. Colocou o casaco sobre o vestido colorido que tanto a embelezava, suas cores combinavam com a primavera que se anunciava. Olhou o relógio e saiu.

Encontrou André.

-Aline Zilli, Daiane Sachet,
Denise Casara e Flávia Bernardi

Esse texto foi tecido a quatro mãos. Tive o prazer de contar com o talento dessas 3 mulheres maravilhosas para abrilhantar o blog. Elas aceitaram o convite e o resultado está aí: um ramalhete de flores de limão! Apesar do isolamento social, em função da pandemia COVID-19, ficou claro que os encontros artísticos e afetivos não tem mesmo fronteiras.
Obrigada, gurias. Vocês são flores perfumadas e coloridas no jardim da vida!

Aline Zilli é atriz e produtora cultural junto ao Grupo Ueba Produtos Notáveis. Dedica-se integralmente às artes e sua democratização, seja no palco, nos bastidores ou na comunicação. Sua faceta escritora, cada vez mais tem batido em sua porta (e ,felizmente, ela tem aberto!).
Daiane Sachett é Diretora da Escola Devii | Yoga e Educação, Instrutora de Yoga, Terapeuta Ayurveda e mãe do Theo.
Ela acredita ser uma gota no oceano, embora seja o oceano em uma gota. Ultimamente tem entendido que a escrita também alimenta e banha sua alma!
Denise Casara é psicóloga, psicanalista. Gosta de brincar com as palavras… Apreciadora de boas leituras, lê bastante e, sempre que pode, arrisca colocar em palavras suas ricas criações. Escreve textos lindíssimos: poéticos e profundos – tais quais sua alma!