Pronta pra Cantar

‘Tens o dom da Primavera’, disse-lhe ele.
Ela lembrou da Betânia e da Nina,
achou lindo, poético que só.
E sorriu seu sorriso de jasmim
como quem, mesmo sem graça
deseja agradecer.

Elogios são cachecóis pra alma:
aquecidos funcionamos melhor.
Mais fácil florir quando acarinhados:
só se brota pra vida de mãos dadas.
Ter o dom da Primavera era, pra ela,
a lindeza de um jardim inteiro.

Grata, lembrou que sua última pétala
sempre foi de bem-me-quer.
Desde sempre, nos seus outonos
desfolhava-se para o bem.
E almejava amores-perfeitos,
revirando sua terra para que nascessem.

Sonhava com uma casinha branca
na Rua dos Ramalhetes.
Lavandas por todas as janelas,
porque atrairia borboletas brancas.
Tem coisa mais linda que asinhas plácidas
farfalhando sobre as jardineiras lilases?

Queria, além do dom das flores, voar
para escrever apoiada em nuvens.
Torcendo que o azul do céu
desse confiança à sua voz e letras.
Difícil faltar inspiração, faltava coragem:
seu jardim carecia de bocas-de-leão.

Mas tinha dias ensolarados e musicais
domingos, principalmente.
Dias mágicos, onde sua alma
vestida de escritora, autenticada
tamborilava os dedos no ritmo da escrita:
como se esse fosse seu único ofício.

Desejava que nunca findassem,
esses dias perfumados.
Para que os invernos ficassem pra trás
e nunca chegassem: sempre Primavera.
No máximo verão, transpirando vida
ou outonos, com suas renovações.

Em meio à pandemia, que entre espinhos
também pode oferecer flores, descobriu:
‘Não sou eu que vivo primaveras.
Elas que vivem em mim. Doze meses.’
E de novo sorriu, num gracejo de lisianthus:
flor de quem se entrega ao amor.

Assim era ela.
Que sonhava em se chamar Margarida.

– Flávia Bernardi