
O que será que passava na cabeça dele quando apagou meu nome do muro dos fundos de casa?
O ano era 1985. Eu devia ter uns onze anos e ele, sete. Escrevi meu nome em letras grandes, usando um spray laranja que restou da atividade escolar. Fiz tudo com um capricho que só as crianças dedicam às coisas que lhes parecem eternas. O spray acabou exatamente quando terminei o último traço da minha assinatura da época. Entrei em casa por alguns minutos e quando voltei aos fundos de casa, o muro estava marrom outra vez. Lembro da sensação: parada ao pé da escada, eu incrédula, e meu irmão com um sorrisinho diferente no rosto…
Nunca vi a cena. Não vi ele com o galão nas mãos, nem ouvi o barulho do muro recebendo a tinta. Vi apenas o resultado: meu nome tinha desaparecido.
Passei a vida imaginando qual foi o motivo daquele menino fazer aquilo. Talvez quisesse escrever o nome dele ao lado do meu e o spray tivesse acabado cedo demais. Talvez tenha achado injusto existir apenas um nome naquele muro. Talvez, para ele, fizesse mais sentido apagar tudo do que deixar apenas um de nós: ou os dois ou nada.
Essa história atravessou a nossa vida. Nós a contávamos muitas vezes, sempre rindo. Minhas filhas e meus sobrinhos adoram escutá-la. E nós adorávamos revivê-la, como quem visita uma casa antiga onde a infância continua morando. É curioso como algumas lembranças envelhecem conosco e têm o poder de nos transportar exatamente para a cena (quase sinto o cheirinho da tinta fresca!).
Quando ele nasceu, antes mesmo de aprender a andar, eu já treinava, no portão de casa, o jeito como iria chamá-lo de volta das brincadeiras na rua. Eu experimentava o tom da voz, imaginando aquele menino correndo pela calçada. Na adolescência, levava-o comigo para as festas. Dizia que era para ele aproveitar, mas sempre soube que era também para protegê-lo, caso fosse preciso. Acho que passei a vida inteira fazendo isso. Quando a coisa apertava, era um para o outro que corríamos. Nem todo irmão é amigo. Nós tivemos esse privilégio: crescemos lado a lado, dividindo medos, alegrias, segredos, silêncios… Éramos cúmplices antes mesmo de saber o significado dessa palavra. E quando nasceram nossas filhas, essa cumplicidade se fortaleceu ainda mais.
Depois veio a doença: a minha, branda; a dele, exigindo muito mais, desde o início. Acompanhei cada internação, cada esperança, cada decepção. Tentava acreditar, junto com ele, que aquele não seria o fim de nada. Dias antes de ele partir, cortei suas unhas. Enquanto segurava suas mãos, uma tristeza estranha me atravessava… eu disfarçava, sacudia a cabeça como quem tenta expulsar um pensamento ruim antes que ele encontre morada. Hoje, acho que meu coração já sabia – mas eu não podia acreditar. Enxergar a verdade seria ser desleal ao seu desejo de viver… que era o que ele mais queria!
Na última internação, saindo da casa dele, abri a capota do meu carro. O vento entrava enquanto o oxigênio lhe faltava cada vez mais. Fomos ouvindo e cantando Tempo Perdido, como tantas vezes fizemos ao longo da vida. Nosso olhar dizia muito mais do que qualquer palavra conseguia alcançar. Esperança e medo andavam conosco naquele entardecer. Quando tocou “não tenho medo do escuro, mas deixe as luzes acesas, agora…” ele riu e me disse: lembra que eu não gostava de dormir sozinho? A sinaleira fechou e eu apertei a mão dele, me aproveitando da música para responder algo: “Somos tão jovens, tão jovens…”, cantarolei. Mas eu seguia sem entender como algo tão sério podia estar acontecendo com alguém tão jovem. Tu não está sozinho, respondi, quando a sinaleira abriu. Meu sobrinho vinha logo atrás, no outro carro. Talvez nenhum de nós soubesse que aquela seria nossa última ida juntos para algum lugar… Dias depois, quando chegaram as últimas horas, éramos novamente os três. As últimas palavras dele encontraram exatamente as mesmas pessoas daquela viagem.
Há coincidências que não explicam nada. Apenas buscam se acomodar no coração, silenciosamente. A dor da morte é tão dilacerante, que tentamos ir nos apegando a qualquer coisa que dê algum sentido para o vazio sem fim.
Depois que ele partiu, voltei muitas vezes àquele muro da infância. Agora, penso que talvez ele nunca tenha querido apagar o meu nome, talvez só não suportasse que existisse um sem o outro.
Eu também não. Perder meu irmão-amigo foi a maior dor da minha vida. Uma dor que não encontra palavras suficientes, porque algumas perdas parecem maiores do que a linguagem… Ele viveu apenas quarenta e cinco anos (“tão jovem”), mas foi um desses raros seres humanos de quem nunca ouvi uma maldade gratuita, uma mesquinharia, uma crueldade. Bem antes de adoecer, eu já dizia que ele era um guri de ouro: e os cachinhos dourados da infância já anunciaram isso.
Quase três anos e eu começo entender que elaborar um luto não é aprender a esquecer, mas aprender um outro jeito de amar. Hoje, sei que a tinta marrom cobriu apenas o meu nome: o dele, o tempo inteiro, permaneceu escrito em mim.
