
“A minha asa está pronta para o voo altivo:
se pudesse, voltaria;
pois ainda que ficasse tempo vivo
pouca sorte teria.”
(Gershom Scholem)
Apesar de ser bem ao lado de uma praça arborizada, achou interessante um pássaro exótico pousar no parapeito da sua janela. A altura daquele espaço justificava a estranheza da cena: lá de cima dava pra ver longe – e muito. Pássaros voam alto, sabia disso, mas até aquela tarde, nunca vira nenhum passarinho revoar através dos vidros da janela – quem dera a ilustre e sossegada visita de um.
Coincidentemente, há poucos minutos, questionava justamente se seus próprios voos teriam limite: até onde poderia chegar com cada um de seus sonhos, desejos, ideias, talentos? Sabia voar? Sabia que voava? Sabia que podia? Onde chegaria se deixasse os desejos movimentarem seus braços-asas?
Era tão mais fácil andar com os pés no chão…
Mas o tal passarinho amarelo, que exibia uma cabeça esverdeada e um pescoço branquinho, branquinho, estava ali para exibir suas asas, seu canto, sua liberdade, seu Ph.D em audácia e coragem… parecia mesmo um convite para voar longe.
Foi engraçado: o canto da ave colorida misturou-se à música que tocava no ambiente, no pouco tempo livre daquela tarde corrida. Em meio ao lamento de Dominguinhos: ” … eu quase que não consigo ficar na cidade sem viver contrariado. (…) Eu quase não falo. Eu quase não sei de nada. Sou como rês desgarrada. Nessa multidão boiada caminhando a esmo”, aquele piado, apesar de muito afinado, destoava da sanfona que magicamente se abria e fechava, nas mãos do talentoso e saudoso mestre. Então, cantando ainda mais alto, como se pra mostrar mesmo que ali estava e que era real, o pássaro achou um jeito de sair da partitura do sanfoneiro e aparecer.
Não tem como desviar o olhar dessas cenas mágicas da vida. Nem como deixar de pensar no que elas representam. Independente das crenças que se tem (ou não), é permitido que se imagine e tente desvendar o significado particular das coisas.
Não era alucinação, era apenas oportunidade de rever a vida… que naquele momento parecia cantarolar que, sim, o voo era permitido para quem quisesse voar. Que o destino era livre, que as asas são próprias. Que cada um pode chegar aonde quiser, por mais inusitado que possa parecer.
Naquele breve encontro, o canto do pássaro se misturou ao seu. Deu vontade de voar também. Restava saber se pra dentro ou pra fora, porque a vida é mesmo um eterno balé – com uma liberdade que exige treino e coragem.
Tentou aproximar-se do passarinho… olharam-se. Lembrou da Lispector no seu cara-a-cara com a barata, que rendeu um dos mais lindos livros que já lera na vida: um GH que encanta a cada vez que se vai ao encontro daquelas páginas. Mas o Pássaro-Harmônico, num giro espetacular, deixou-se cair no vazio, voando em seguida – desses movimentos que apenas se faz quando há confiança plena na capacidade de flutuar… nessas entregas cegas de quando não se tem medo de cair: colo bom que se teve um dia é a rede de proteção sempre armada no chão duro da vida.
O voo se espalhou pelo céu quase sem nuvens. Seu olhar acompanhou aquele passeio destemido e, então, pensou que gostava de espalhar questionamentos pelo ar, que gostava de enxergar as coisas por outras perspectivas, que não conseguia nunca ficar quieta no ninho… Pensou em todas essas coisas que obrigam a espiar a finitude, que fazem ver que vai faltar tempo pra tanta coisa: livros, vida, lugares, pessoas, experiências… que vai faltar tempo pra voar, até. E acolheu tudo aquilo, reconhecendo ser a sua forma de poder planar – independente de tirar ou não o pé do chão.
Somos incompletos, mortais, falíveis. Somos humanos. Mas também voamos. Somos livres. Podemos ser.
E ser é tudo isso que também é nada.
– Flávia Bernardi