
“Atravessamos o presente de olhos vendados, mal podemos pressentir ou adivinhar o que estamos vivendo.
Só mais tarde, quando a venda é retirada e examinamos o passado,
percebemos o que vivemos e compreendemos o sentido do que passou.” (Milan Kundera)
A maioria das pessoas falava da beleza da cena, do quão impressionante era tudo aquilo: uma poesia, uma história de amor verdadeira… Mas ela ainda não conseguia enxergar bem nada disso, porque a dor era tanta naquela perda dupla – onde pai e mãe partem na mesma data – que seus olhos não conseguiam ver através da névoa cerrada do abandono. Por diversas vezes pensou: ‘Por que justamente comigo?’… Talvez se não fosse na própria pele, ficaria mais descomplicado ver a arte do amor ali exposta (que ela até podia entender, mas não conseguia sentir!). Ficou de pé no meio dos dois, parada… e pra onde quer que olhasse, qualquer um dos lados, via suas mais profundas raízes jazendo ali: imóveis, pálidas, silenciosas.
Com cada uma das suas mãos tocou as mãos deles, agora geladas, como se entrelaçando-as… imaginando que era assim que queriam estar. A morte impede que os dedos se entrelacem com a vida, e quiçá seja este o primeiro sinal concreto da ausência: fica decretado ali que não há mais correspondência no aperto. Não tem mais calor, nem força, nem a reciprocidade do toque inconfundível de pai e mãe… Resta apenas o aconchego caloroso das boas lembranças.
E ela sentiu isso ao tocar as mãos deles – criando uma espécie de ponte, ligando-os. Não lhe faltavam lembranças, faltavam eram forças para seguir em frente. Cheguei perto e perguntei: Conseguiu dormir?, “- Dormir foi fácil… difícil foi acordar”, respondeu ela, que apesar de estar com as mãos pousadas sobre as mãos deles, começava a ver que, a partir de agora, esse lugar de filha se modificaria.
A beleza da cena deve vir com o tempo… e a ideia de terem partido juntos, no futuro, possivelmente lhe acalme o coração e encante a alma. Os duros golpes ultrapassam até as estruturas mais impermeáveis, encharcando tudo com um pavor tão grande que os sentidos ficam prejudicados: a visão turva, o paladar amarga, o tato fica na miséria, o cheiro é só saudade e o ouvido fica buscando ouvir vozes que emudeceram. Sensações cáusticas de um desejo de desistir também, de partir junto, de sacudir pra longe a ideia da orfandade que dilacera…
Ela segurou a mão dele e pensou no voo do condor… que ultrapassa seus limites batendo asas e alcançando inimagináveis voos, capaz de fugir de qualquer atrocidade. Segurou a mão dela também, mais uma vez, antes da derradeira despedida: do nunca mais!
Pode escutar dentro de si a voz paterna, cantando a música que cantaram juntos tantas vezes… e quase pode sentir o carinho dos dedos maternos, como naquela última vez, dentro do carro, onde suas mãos se entrelaçaram e ela teve a certeza da presença eterna de mãe pelo simples toque.
Só voando muito alto pra superar a dor que a terra lhe causava naquele momento.
Mas ela sabia voar: a arte sempre lhe dera asas…
Quando a beleza finalmente chegar, em asas elaboradas, ela voará!
“Voa condor, voa condor! Que a gente voa atrás. Voa atrás do sonho, com o céu por detrás…” (Oswaldo Montenegro)
– Flávia Bernardi